Bateu saudade? Artistas contam o que fazem fora da folia em BH

Uma compositora, um educador musical e um professor de história. Eles também são artistas e compartilham a paixão pela música e pela folia de rua. Para eles, ao contrário do que se costuma dizer, o ano não começa só depois do carnaval. Até aqui, eles já ralaram muito, já colocaram o bloco na rua e seguem atuantes nas profissões que escolheram.

Fora da percussão do bloco Chama do Síndico, Paulo “PG” Rocha, 36 anos, é professor de história e (é, claro!) de música. A carreira escolar começou em 2006, e hoje, de segunda a sexta-feira, leciona em dois colégios tradicionais. Em fevereiro, já estava na sala de aula, sem perder o fôlego que a multidão de foliões exigiria dias depois.

Para um carnaval que ganha cada vez mais evidência, foram muitos meses de preparação. “Na verdade não para, é no stop. Para este carnaval, por exemplo, estive envolvido desde setembro. No fim de março agora, já temos reunião e ensaio para a banda. Vamos avaliar o carnaval e fazer fechamentos”, disse.

PG Rocha, como é conhecido, destaca o lado social da música e da efervescência que o carnaval provoca na cidade. “Carnaval é ocupação do espaço popular, cidadania cultural, mobilidade”, definiu.

“Sou carnavalesco no sentido mais amplo do termo. Estou envolvido com a música, com a cultura popular antes mesmo do reflorescimento do carnaval em BH”, afirma.

O bloco que ajudou a fundar leva o som de Jorge Ben Jor e Tim Maia para as ruas desde 2012. Neste ano, o desfile foi marcado por manifestações contra racismo, homofobia e a violência contra a mulher.

Entre uma pausa e outra, atua como cantor no grupo Domilindró, que reverencia Chico Science, na banda autoral Groove Barracão e na Chega o Rei, do bloco que se dedica aos sucessos de Roberto Carlos.

O lado educador começou com projetos na periferia. “Já puxei bloco permanente, com oficina o ano inteiro, na Vila Ventosa por 11 anos, no Programa Fica Vivo”, relembrou. Por meio da arte e cultura, o projeto é um mecanismo para reduzir a criminalidade.

E a rotina só fica completa com mais dois papéis. “Além de tudo sou pai, marido. Inclusive, ela [filha] está na minha frente tocando o terror (risos)”, contou.

Ator, professor, músico. Um dos fundadores do grupo Tambolelê, Geovanne Sassá, 48 anos, resgata o som da infância em tudo que faz. Os pais eram seresteiros em São Francisco, no norte de Minas e, no interior, vivenciava manifestações religiosas e folclóricas.

“A gente trabalha com alguns aspectos musicais específicos de Minas, como o congado, folia de reis e boi de reis, que é o bumba meu boi com sotaque mineiro, presente no Norte de minas. É música afro-mineiro porque, apesar de existir em outras partes do Brasil, tem ritmos que só são encontram em Minas”, explica.

Aos 14 anos, Sassá se mudou para a capital mineira. Já na faculdade, onde cursou filosofia, foi aprendiz em uma oficina do Festival Internacional de Arte Negra, em 1994. Cinco anos depois, o Tambolelê é criado no bairro Novo Glória, na Região Noroeste de Belo Horizonte.

Ele relembra que reunia a comunidade para tocar percussão na rua, muitos antes do carnaval de hoje. O grupo mantém oficinas gratuitas.

Ao levar a música “afro-mineira” para outros países, fez questão de voltar sempre com algo na bagagem. Ele tem uma coleção de instrumentos musicais adquiridos em viagens, que usa em apresentações.

O artista múltiplo pensa a música pelo lado transformador e levou projetos de musicalização para várias escolas, públicas e particulares.

“Eu acredito na força da música, ela pode compor um ser humano melhor, promove a socialização, tem esse poder”, disse.

Sassá está na sala de aula de segunda a quarta-feira. No resto da semana, se divide em apresentações culturais, palestras, oficinas e trabalho solo. Muito trabalho o ano inteiro e mais entrega no carnaval. Há três anos, ele está à frente do bloco infantil Os baianinhas, que abre o desfile do Baianas Ozadas.

“O carnaval está no caminho certo. Enxergo uma grandeza. É um amor que as pessoas têm por essa festa que veio para ficar e já deixou saudades”, disse.

Priscila Glenda, de 34 anos, se formou em publicidade, mas se rendeu profissionalmente à música a partir de 2009. Dois anos depois, caiu na folia e não parou mais.

Ela é vocalista dos blocos Juventude Bronzeada e É o amô, que arrastou milhares de foliões em BH. Nas apresentações, por exemplo, são cortadas músicas com tom machista ou homofóbico. “O carnaval nasceu com tom político, e a gente faz questão de não perder, mesmo sendo entretenimento”, disse. Na folia, ela encontra espaço para a afirmação feminina e a defesa de ideias.

“Carnavalesca? Sou demais, com muito orgulho. O carnaval de Belo Horizonte me trouxe amizades e reconhecimento. É um espaço de encontros”, disse a cantora e compositora.

Passada a folia, a pausa é pequena para respirar, porque as reuniões para planejar o carnaval de 2020 começam antes do fim do mês.

Ela também se dedica à banda Pelos Cantos, de releitura de música brasileira, e à Banda Djambê, onde extravasa o lado de compositora, e tem agenda em festas de casamento e formatura. E assim vai até o fim do ano, conciliando também o show cênico As Vadias, que é levado a festivais e coloca em evidências compositoras locais.

“Releituras e autorais, com prioridade para mulheres. Por mais que a gente tenha conquistado algumas coisas, o machismo é muito sufocante na nossa sociedade”, disse.

Fonte:https://g1.globo.com/mg/minas-gerais/carnaval/2019/noticia/2019/03/18/bateu-saudade-artistas-contam-o-que-fazem-fora-da-folia-em-bh.ghtml



Desenvolvimento de software sob medida

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here