Blocos de BH correm contra o tempo para arrecadar dinheiro para desfiles de carnaval

Sob risco de nem sair, blocos apelam para financiamento coletivo, apesar de a Belotur contabilizar alta de 42% nas verbas. Apreensão de carros de som eleva tensão

Quando foliões cantam com toda empolgação o verso “Eu quero é botar meu bloco na rua”, da música de Sérgio Sampaio, muitos nem imaginam as dificuldades para que isso aconteça. Às vésperas dos dias oficiais da festa momesca, blocos famosos em Belo Horizonte estão com chapéu na mão e campanhas de financiamento virtual para arrecadar dinheiro e fazer o carnaval na capital mineira, que se tornou um dos maiores do país.

Sem apoio da prefeitura, que financiou somente um quinto dos grupos, e sem patrocínio de empresas, alguns estão indo pra rua na marra, com estrutura menor, como o Pena de Pavão de Krishna. Mas há desfiles com risco de serem cancelados, caso do Filhas de Clara. Não bastasse a falta de verba, a tensão aumenta com a apreensão de carros de sons usados há anos pelos blocos de rua pela Polícia Militar (PM), que argumenta falta de documento alterando a categoria do veículo em função das adaptações para os desfiles. O mesmo carro é usado por dezenas de grupos com desfile marcado para os próximos dias.
A situação do bloco Filhas de Clara, que homenageia a cantora mineira Clara Nunes, ainda está indefinida. “O desfile vai acontecer mediante a arrecadação e ainda está longe de ser o suficiente”, afirma a cantora Aline Calixto, uma das integrantes do bloco, que sai no domingo pós-carnaval, 1º de março.
Houve a tentativa, sem sucesso, de conseguir patrocínio, como no ano anterior. Com uma campanha de financiamento coletivo ativa, a mensagem é direta: “Sem sua ajuda, nosso bloco não sai”. Até o momento, a organização só conseguiu levantar 20% do total de R$ 16 mil necessários para bancar trio elétrico, seguranças e brigadistas, alimentação, entre outros custos.
“Não tem como tirar do nosso bolso. Todo mundo está trabalhando sem ganhar nada”, afirma. A oito dias do evento, a cantora tem esperança de que o bloco consiga desfilar pelo segundo ano. “Está surgindo uma rede de solidariedade muito bacana”, diz Aline, que estará em cima do trio, no sábado de carnaval, no Bloco da Calixto.
O Filhas de Clara não recebeu nenhum centavo da prefeitura, que este ano apoiou 99 dos cerca de 500 blocos, com verba de R$ 3,5 mil a R$ 12 mil, classificados em categorias de A a D. De acordo com a Empresa Municipal de Turismo de Belo Horizonte (Belotur), houve um aumento de 42% nos recursos destinados aos blocos de rua, que passou de R$ 600 mil, em 2019, para R$ 850 mil, este ano. Ainda assim, representa 6% do orçamento do carnaval, de R$ 14,3 milhões.
O Angola Janga ficou de fora e a caixinha do grupo, quase na véspera do cortejo, conta com menos da metade dos R$ 60 mil planejados para o desfile, que ocorre no próximo domingo, no Centro de BH. Mas o bloco afro, dedicado a empoderar a população negra, vai sair de qualquer jeito, garantem organizadores. “Esse ano foi o mais difícil do bloco. As empresas não estão tão interessadas em se alinhar a um bloco afro. Existe um racismo institucional”, critica um dos co-fundadores, Lucas Jupetipe.
Sem apoio da prefeitura e patrocínio de empresas, eles precisaram ser criativos para arrecadar fundos e colocar o bloco na rua, com seus 50 bailarinos e mais de 70 músicos. Além do financiamento coletivo na internet, ainda em curso, foram promovidos diversos eventos em parceria com bares.
“O que faz a gente se esforçar é a vontade de carnavalizar. No Angola Janga, a população negra se encontra”, diz Jupetipe. A falta de recurso não torna o desfile menos especial. Em seu quinto, o Angola Janga vai lançar seu primeiro álbum com repertório autoral. A expectativa é arrastar 100 mil no domingo.
Se foi uma conspiração do universo, depende da crença de cada um, fato é que, na reta final, o bloco Pena de Pavão de Krishna conseguiu o dinheiro para garantir a folia em homenagem à divindade hindu – os foliões saem pintados de azul – no domingo de carnaval. “Este ano a gente está menor. Conseguimos o mínimo, em torno de R$ 10 mil e continuamos arrecadando”, afirma uma das coordenadoras, Dezza Coutinho.
Apesar de ser um dos mais famosos de BH, o “Pena”, como é carinhosamente conhecido, não foi aprovado para receber recursos da prefeitura e, se fosse necessário, sairia até de bicicleta com caixas de som, como no primeiro ano do bloco, em 2013. “Fizemos festa, pedimos doação, vendemos camiseta, passamos chapéu nos ensaios. Procuramos entender a fluidez e que uma hora chegaria. Nossa causa é apoiada tanto espiritalmente quando no plano físico”, diz.

fonte: Estado de Minas

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