Cinema de BH desafiou isolamento em 1918; no local, loja faz o mesmo em 2020

Coronavírus levanta confronto já presente na gripe espanhola na capital, há 100 anos: liberdade individual ou interesse público?

A história pode ser mais cíclica do que gostaríamos, especialmente quando o tema é pandemia. Durante a crise provocada pela gripe espanhola na Belo Horizonte de 1918, o proprietário de uma rede de cinemas anunciou que resistiria à recomendação de isolamento, propondo levantar “o ânimo abatido do povo flagelado e dar-lhe confortante espairecimento”. O Cine Avenida ficava na Avenida Afonso Pena, onde hoje funcionam lojas. Nesta manhã de quarta-feira (8/4/2020), um dos comércios do térreo estava de portas abertas, sem barreiras que impedissem a entrada dos clientes. 

O prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PSD), avisou na tarde desta quarta: novo decreto vai impedir que estabelecimentos não essenciais estejam abertos a partir de 9/4. Por enquanto, a recomendação para o comércio era de atender da porta para fora, com barreiras na entrada – a proibição total valia, conforme o primeiro decreto de enfrentamento municipal ao coronavírus, para estabelecimentos como casas de shows, cinemas, academias e bares. 
Dentre várias lojas de portas fechadas no Centro da cidade, o Estado de Minas encontrou nesta manhã a sapataria Via Ricco aberta – ela funciona no prédio da Associação Comercial de Minas, construído no mesmo endereço na Avenida Afonso Pena que abrigou o antigo Cine Avenida antes da demolição. 
O proprietário da loja de calçados e artigos esportivos, Otacílio Assis Ferreira, contou que manteve as portas fechadas por 15 dias, mas que estava abrindo nesta semana, em horário reduzido. Diminuiu também a escala de funcionários – presentes apenas ele e a esposa na loja, com a funcionária de férias. E assegurou que, com o movimento fraco, não deixava que entrasse mais de uma pessoa por vez no local.
No passado…“O empresário da rede de cinemas sofreu várias críticas e desistiu de abrir ao público, em 1918”, conta a historiadora Anny Jackeline Torres Silveira, professora da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Ela narra a história no livro “A influenza espanhola e a cidade planejada – Belo Horizonte, 1918”, lançado em 2007, que deve ganhar nova versão em e-book. 
Esta negação do problema faz parte da maneira como as pessoas tendem a reagir diante de um mal invisível – e isso é comum a diferentes epidemias, em diversos períodos da história, de acordo com Anny. A resistência do empresário da Gomes Nogueira ocorreu no auge da pandemia em Belo Horizonte, em novembro. Entre outubro e dezembro de 1918, aproximadamente 2 mil pessoas foram infectadas na jovem capital de 50 mil habitantes. 
E o empresário da Gomes Nogueira foi aos jornais anunciar que reabriria algumas de suas salas. Entre as justificativas, a opinião de que a influenza não tinha se alastrado em Belo Horizonte com a mesma força do que ocorrera no Rio de Janeiro e, assim, medidas radicais como o fechamento de casas de diversão ou estabelecimentos de ensino não faziam sentido.
O jornal Diário de Minas se opôs à atitude do empresário. Publicou que BH não repetiu os horrores da capital federal porque cumpriu as determinações da Diretoria de Higiene. E sugeriu que os cinemas da empresa Gomes Nogueira seguissem fechados, o que seria “um testemunho bem alto de que se acha identificada com o interesse coletivo, ao qual não superpõe o interesse individual”.
Por fim, o empresário cedeu às orientações das autoridades e à opinião pública, adiando a reabertura das salas. “Para além de todas as justificativas apresentadas pela Empresa Gomes Nogueira, esse episódio coloca em evidência um dos problemas acarretados pelo impacto das experiências epidêmicas e das disposições ordenadas pelas autoridades para fazer frente à sua ameaça: o confronto entre a liberdade individual e o interesse público”, escreve a historiadora.

fonte: Estado de Minas

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