Coronavírus: Quarentena em BH tem intensidade que pode reduzir mortes

Estado de Minas constata queda drástica de movimento na Praça 7, um dos pontos mais movimentados da capital, após primeiras medidas para reduzir aglomeração. Mortes podem ser 80% menores

As medidas dos setores público e privado para evitar uma disseminação incontrolável da doença COVID-19 já tiveram grande impacto na rotina de Belo Horizonte e isso pode ser fundamental para reduzir os casos de transmissão do novo coronavírus. Segundo projeções da Sociedade Mineira de Infectologia, se tais ações conseguirem barrar metade das possíveis transmissões, os registros de mortes poderão ser 80% menores e o de internados 72% abaixo do que é esperado num cenário sem qualquer controle. E a boa notícia é que há sinais de que Belo Horizonte está no bom caminho do isolamento voluntário.

Conforme apuração da reportagem do Estado de Minas, durante o horário de pico da manhã de sexta-feira, a Praça 7, que é um dos locais mais movimentados do Hipercentro da capital mineira, chegou a apresentar uma circulação de pedestres 71% menor do que a média. No caso de veículos, houve diminuição de 47%.

Segundo o histórico da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), a média diária de movimento na Praça 7 é de 400 mil pessoas por dia, ou 278 por minuto, numa razão que achata o movimento dos horários de pico. Às 7h30 de sexta-feira, a reportagem, com auxílio do monitoramento aéreo de um drone, contabilizou uma média de 81 pessoas por minuto cruzando os quatro quarteirões com nomes de tribos indígenas. Um movimento de 29% da média normal, que pode contribuir para reduzir o contágio caso seja mantido assim ou caia ainda mais. A passagem de veículos também diminuiu para índices próximos do preconizado para menos mortes e infecções. Seriam 63 carros, motos, caminhões e ônibus por minuto na média achatada (90 mil por dia), mas no horário de pico o total atingiu 33 a cada 60 segundos, próximo de 53% do número habitual.

Contudo, ainda é cedo demais para comemorar, uma vez que as pessoas obrigadas a circular podem cometer erros e abrir portas para o contágio. Foi o que constatou a reportagem do EM nas estações de ônibus, metrôs e na rotina de trabalhadores, pacientes e cidadãos desde quarta-feira (18), quando as aulas começaram a ser interrompidas no estado, até a sexta-feira (20), na entrada em vigor da suspensão dos alvarás de funcionamento de bares, restaurantes, shoppings e outros estabelecimentos comerciais não relacionados a abastecimento e a cuidados médico-sanitários. O transporte público também sofreu uma redução importante e uma intensificação na higienização de seus veículos e instalações.

Os exemplos de comportamentos comprometedores mais significativos foram vistos nas estações do BRT/Move, o mais capilarizado transporte de massas da Grande BH. Na Estação de Integração São Gabriel, na Região Nordeste da capital. Mesmo com o fluxo pequeno de passageiros e a redução de 5% das viagens, reforçadas pela higienização sistemática de veículos, espaços de circulação e espera. Mas, enquanto um grupo de limpeza passava álcool em gel no interior dos ônibus, corrimãos e sensores de cartões e profissionais banhavam as plataformas com jatos de água de caminhões-pipa, bem ao lado outros comportamentos expunham usuários a riscos de contágio pelo novo coronavírus.

Em todas as plataformas, mesmo com poucas pessoas, o hábito de se alinhar em fileiras compactas permaneceu, formando aglomerações contraindicadas pelos agentes de saúde. O número de ambulantes expondo mercadorias passíveis de serem manipuladas pelas mãos desprotegidas de consumidores indecisos cerca principalmente os acessos e o corredor que leva ao metrô. Numa dessas passarelas, um homem distribuía com as mãos nuas panfletos promocionais de um plano de saúde cujo lema é “a sua saúde em primeiro lugar”. Algo temeroso, sobretudo por ser uma das principais recomendações contra a proliferação do coronavírus o cuidado para não tocar nada que possa ter sido usado por outras pessoas e a constante higienização das mãos para o vírus não ser introduzido nos olhos ou nas mucosas nasais e da boca.

Mesmo de máscara cirúrgica para proteger suas vias aéreas do vírus, a securitária Simone Costa, de 47 anos, pegou um dos panfletos que eram distribuídos e saiu lendo sem qualquer preocupação. Ao ser indagada sobre a atitude controversa, ela acabou preocupada. “Nem me toquei disso e olha que estou muito aflita com essa doença. Não queremos levar isso para dentro de casa. Onde será que consigo lavar minhas mãos agora, antes de pegar o ônibus?”, indagou.

Nem todos cumprem isolamento

As medidas de isolamento adotadas em Belo Horizonte surtiram efeito fechando muitos comércios e mantendo em casa potenciais consumidores e trabalhadores. Mesmo assim havia pessoas se arriscando e lojas abrindo sem permissão. Na Savassi, Região Centro-Sul de BH, o movimento fraco de quarta-feira a sexta-feira lembrava um dia de domingo ou feriado. Lojas de calçados e de roupas continuaram. A presença da polícia e da Guarda Municipal era visível. Nas portas de lanchonetes e restaurantes vazios o grande movimento era das fileiras de motocicletas e bicicletas de entregadores que trabalham num ritmo frenético. Bares e restaurantes estão proibidos de abrir em BH, mas a entrega dos alimentos é permitida.

Os pontos de táxi se mantiveram cheios, bem como os tradicionais estacionamentos de motorista de aplicativos, um indício claro da falta de passageiros. Nas portas de hotéis, os manobristas não escondiam seu tédio com longos bocejos. Dos supermercados saía muita gente carregando sacolas abarrotadas, sendo que nos estacionamentos desses estabelecimentos os porta-malas de carros lotados remetiam aos grandes estoques comuns no período da hiperinflação de fins da década de 1980 e início da de 1990.

No Centro, as quatro pistas da Avenida Afonso Pena passaram o dia com movimento semelhante ao de uma rua de interior. Pouquíssimos carros nos dois sentidos e o desaparecimento quase que por completo das grandes multidões atravessando pelas faixas de pedestres. Com o Parque Municipal fechado, a Região Hospitalar perdeu sua conexão direta com o Centro e ficou mais isolada. Nos pontos de ônibus, as pessoas procuraram se sentar distantes umas das outras, algumas delas em pé longe dos abrigos, mas de olho na frequência dos ônibus pelos painéis eletrônicos e na sua aproximação.

Na Avenida dos Andradas e Teresa Cristina, os bloqueios que foram feitos em duas pistas dos dois sentidos devido aos estrados pós-chuvas não provocaram mais engarrafamentos, pois o número de carros muito pequeno foi facilmente comportado pelas duas pistas restantes.

Movimento também tímido na Avenida Cristiano Machado. Nas três pistas de cada sentido, os BRT/Move que circulavam no horário de pico matinal dentro da pista exclusiva transportavam poucos passageiros. Dentro das estações de transferência, apenas alguns passageiros esperavam sua baldeação, a maioria aguardando na parte que fica aberta para justamente evitar a concentração de pessoas. As agências e lojas de venda de veículos abriram as portas na quarta-feira e na quinta-feira, mas registraram pequeno movimento, o que caiu ainda mais drasticamente a partir de sexta-feira, quando poucas se arriscaram a manter as portas abertas.

fonte: Estado de Minas


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