Mais pobres dão fôlego ao isolamento para evitar a COVID-19 na Grande BH

Moradores da região já aceitam ficar em casa 16,8 semanas, o que levaria a medida até julho. Disposição é maior nas classes C, D e E. Na capital, tolerância média é maior

O medo de contágio pela COVID-19 entre a camada mais pobre da população e a falta de uma opção prática para o enfrentamento da disseminação do novo coronavírus (Sars-Cov-2) fazem com que a população da Grande BH se comprometa ainda mais com ações de afastamento social. Na região, essa medida teve seu apoio ampliado na terceira semana da pesquisa “Termômetros da Crise COVID-19”, realizada pelo Instituto Olhar – Pesquisa e Informação Estratégica e divulgada pelo Estado de Minas. De acordo com o levantamento, que permite aos entrevistados dar nota de zero a 10 para cada questão, o comprometimento com o isolamento social para superar a crise sobe, chegando a 8,6, depois de ter marcado 8,2 na segunda semana e 8,3 na primeira. Reflexo disso, os moradores da Grande BH já dizem tolerar um isolamento de até 16,8 semanas, contra as 10,8 de sete dias atrás, ou seja, um período 56% maior que o aceito antes.

É a terceira ascensão consecutiva desse termômetro, que na primeira semana registrou uma aceitação de 9,6 semanas de afastamento público. Na prática, o que dizem os 1.958 entrevistados na pesquisa, realizada entre os dias 16 e 20 de abril, é que tolerariam 117,6 dias de isolamento. Tomando-se como partida 20 de março, esse prazo os manteria em suas casas até 15 de julho. A tolerância inicial, manifestada na primeira semana, era até 26 de maio, passando para 6 de junho com a segunda semana de entrevistas. A margem de erro da pesquisa é de 2,3 pontos percentuais e o intervalo de confiança é de 95%.
A capital mineira se destaca como a mais disposta ao isolamento para combater a disseminação da infecção, com uma tolerância ainda maior, de 17,1 semanas. Ou seja, os belo-horizontinos aceitariam se afastar do contato público por mais dois dias, chegando a 17 de julho em casa. A média das demais cidades é de 15,2 semanas, ou até 3 de julho. Para o sócio-diretor do Instituto Olhar, professor Matheus Lemos de Andrade, que é doutor em administração, essa decisão reflete também uma falta de opções. “As pessoas percebem que só dispõem de uma ferramenta efetiva para evitar a doença, que é o isolamento. Uma vez que as demais, como a testagem de pacientes, demandam exames que o sistema não dispõe e o uso de novas drogas é desaconselhado pelos médicos e cientistas”, avalia.
A classe média alta e os mais ricos, ainda que com alto comprometimento, são os que menos dias estão dispostos a se isolar, com a classe A estimando 16,2 semanas e a classe B com o menor nível, de 14,3 semanas. A adesão é maior entre os mais pobres e a classe média, com 17,3 na classe C e 17,6 semanas nas classes D e E. O apoio ao isolamento é maior entre mulheres, com nota média de 8,9, enquanto a dos homens é de 8,5. Os mais velhos, acima de 60 anos, também elevaram essa nota, com média de 8,9 pontos. Na Grande BH, o apoio recebeu 8,5 e na capital subiu para 8,8. “Esse comprometimento cresceu justamente na semana da liberação das verbas de R$ 600 de auxílio aos informais e outras categorias pelo governo. Isso pode ter trazido uma certa diminuição da preocupação imediata com as finanças, o desemprego e aumentado a tolerância nessa camada social”, pondera o diretor do instituto de pesquisas.

Temor 

O medo da COVID-19 também se manteve em patamar elevado nessa terceira pesquisa, com nota 7,9, uma discreta acensão ante o segundo levantamento, com 7,8 de índice médio. Dos entrevistados, 17,8% afirmaram conhecer alguém que está infectado. A média de pessoas infectadas que os entrevistados conhecem é de 2,4 pacientes. O medo dos efeitos da doença são maiores entre as mulheres, com nota 8,4, que cresceu sucessivamente desde a primeira pesquisa, que registrou 8, 8,2, e chegou a 8,4 na segunda. Os homens deram nota média 7,3 para esse temor, que sempre foi menor em todas as rodadas da pesquisa. Os mais pobres manifestaram mais medo, com as classes D e E apontando nota 8,2. A classe A registrou menor temor, com nota 7,3. Os idosos, acima dos 60 anos acham mais grave a COVID-19, com nota 8,6.

“São temores compreensíveis. Os idosos estão na faixa etária de risco. Os mais pobres sabem que vão depender exclusivamente do Sistema Único de Saúde (SUS) caso venham a ficar doentes. E a mulher tem ainda uma herança de desempenhar um papel social mais preocupado com a família, enquanto os homens se mostram menos sensíveis e mais propensos ao risco”, avalia Andrade.

Governos perdem pontos

A atuação geral dos governos na condução da crise provocada pela COVID-19 piorou na avaliação média dos habitantes da Grande BH, segundo dados da pesquisa. A esfera federal, por exemplo, despencou, de nota 5,9 para 4,4. Quem mais desaprova o governo federal são os mais jovens, de 16 a 29 anos, que deram nota média 3,8, e os mais pobres, com as classes C, D e E conferindo ao Executivo nacional a pontuação 4,1. Em Belo Horizonte, a nota é 4,2, mais baixa que na Grande BH, onde chega a 5,1. “Isso é claramente uma resposta a todas essas idas e vindas e indefinições.”
A troca do então ministro da saúde Luiz Henrique Mandetta pode ser o ponto culminante da insatisfação na terceira pesquisa, pois na segunda semana o governo federal tinha experimentado uma melhora de avaliação quando o presidente e o ministro sinalizaram um entendimento”, observa o diretor do Instituto Olhar, professor Matheus Lemos de Andrade.O governo estadual também caiu, de 6,5 para 5,4, na média. “A avaliação do estado caiu significativamente, talvez por uma certa percepção de que esteja muito apagado frente à doença. Não se posiciona e está muito passivo. Não toma as rédeas. Em contrapartida, as pessoas percebem que a atuação dos prefeitos é mais incisiva, pois os seus decretos têm impactos diretos na rotina das pessoas”, afirma Andrade.
A economia segue sendo o setor de maior preocupação, contudo, tem se reduzido, principalmente no termômetro que mede o impacto da doença nas finanças da própria família, que caiu de 9,1 para 8,8. “É um movimento de assentamento de percepções. No início, muito alarmismo, e hoje as pessoas já podem avaliar melhor sua situação financeira, as empresas, os governos, há campanhas para que não haja demissões. Ocorreu um apoio financeiro do governo”, constata o especialista. Entre os entrevistados, houve diminuição da renda familiar de 53,4% em razão da crise, mas o desemprego, por enquanto, afetou 1,4%. Nas contas familiares, o maior impacto percebido é nos estratos sociais D e E, com nota 7,8, com diminuiu em média da renda de 67,1%. O menor ocorreu na classe A, com nota 6,1, com a renda inalterada para 62,1% dos entrevistados.

Capital em calamidade pública

O prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PDS), decretou estado de calamidade pública no município devido aos impactos econômicos, sanitários e sociais da COVID-19 e das medidas necessárias para  contenção, como o isolamento social e a ampliação da cobertura em unidades de saúde. O decreto reforça o estado de emergência, de 17 de abril, e se segue à instalação do estado de calamidade pública estadual, baixado pelo governador Romeu Zema (Novo), em 20 de março, e federal, adotado pelo presidente Jair Bolsonaro em 16 de abril. A validade do decreto é até 31 de dezembro e a medida precisa ser submetida à deliberação da Assembleia Legislativa do Estado de Minas Gerais (ALMG).
Na decorrência da calamidade pública, segundo a Lei Federal Complementar 101, são suspensas a contagem dos prazos e as disposições estabelecidas nos artigos da legislação que tratam sobre ultrapassar os limites de despesas com pessoal e de endividamento público e a necessidade de enquadramentos para dirimir tais encargos. Se o decreto for aprovado, BH será dispensada de atingir os resultados fiscais e a limitação de empenho prevista pelas metas fiscais.
Hoje, entra em vigor na capital mineira outra norma decretada pela prefeitura contra a disseminação do novo coronavírus (Sars-Cov-2), que é a obrigação do uso de máscaras. De acordo com o Decreto Municipal 17.322, de 17 de abril, passa a ser obrigatório o uso de máscaras ou cobertura sobre o nariz e boca em todos os espaços públicos, equipamentos de transporte público coletivo e estabelecimentos comerciais, industriais e de serviços em Belo Horizonte.
A medida se faz obrigatória e tem tempo indeterminado. Todos os estabelecimentos comerciais, industriais e de serviços deverão impedir a entrada e a permanência em seu interior de pessoas sem máscaras ou cobertura no rosto. Caberá a eles afixar cartazes informativos sobre a forma de uso de máscaras e o número máximo de pessoas permitidas ao mesmo tempo dentro do estabelecimento.
Também como medida preventiva à proliferação do vírus, desde a segunda-feira foi suspensa a gratuidade aos usuários de transporte público que tenham mais de 65 anos nos horários de pico, entre as 5h e as 8h59 e entre as 16h e as 19h. 

O que é o coronavírus?

Coronavírus são uma grande família de vírus que causam infecções respiratórias. O novo agente do coronavírus (COVID-19) foi descoberto em dezembro de 2019, na China. A doença pode causar infecções com sintomas inicialmente semelhantes aos resfriados ou gripes leves, mas com risco de se agravarem, podendo resultar em morte.

Como a COVID-19 é transmitida?

A transmissão dos coronavírus costuma ocorrer pelo ar ou por contato pessoal com secreções contaminadas, como gotículas de saliva, espirro, tosse, catarro, contato pessoal próximo, como toque ou aperto de mão, contato com objetos ou superfícies contaminadas, seguido de contato com a boca, nariz ou olhos.

Como se prevenir?

A recomendação é evitar aglomerações, ficar longe de quem apresenta sintomas de infecção respiratória, lavar as mãos com frequência, tossir com o antebraço em frente à boca e frequentemente fazer o uso de água e sabão para lavar as mãos ou álcool em gel após ter contato com superfícies e pessoas. Em casa, tome cuidados extras contra a COVID-19.

fonte: Estado de Minas


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